quinta-feira, 17 de maio de 2012

“The Hiphop Archive” (WEB Du Bois Institute - Harvard University)


Em meados de 2009, quando comecei a desenhar a estrutura da minha dissertação de mestrado, decidi fazer uma busca de bibliografias internacionais sobre o Hiphop e me deparei com uma página  que descrevia o projeto “The Hiphop Archive”, hospedada dentro do WEB Du Bois Institute for African and African American Research – Harvard University. Na mesma webpage onde eu encontrei estas informações (http://www.dubois.fas.harvard.edu/hiphop-archive-harvard-university), tive acesso ao site oficial do arquivo (http://hiphoparchive.org/). Passei o dia explorando os links disponíveis e lendo sobre sua missão, acervo, coleções, informativos e etc. Dentro de poucos minutos eu pensei: “encontrei o meu lugar, e é pra lá que eu vou!”
Este Instituto, no qual se desenvolve o projeto “The Hiphop Archive”, carrega o nome do primeiro negro a receber o título de doutorado em Harvard, William Edward Burghardt Du Bois (1868-1963), considerado o pai do Pan Africanismo e autor de um entre os famosos livros que circulam entre os Hiphoppers e ativistas negros brasileiros, “As Almas da Gente Negra” (1903).
Decidida a fazer parte do grupo de “scholars” desta instituição, escrevi um projeto de pesquisa e submeti ao processo seletivo. Em 2011 recebi a carta de aceite e em janeiro de 2012 iniciei minha residência na Universidade de Harvard como “research scholar”. No primeiro momento, fiquei impressionada com a quantidade de estudos sobre Hiphop e com o número de disciplinas oferecidas nos diferentes departamentos para alunos graduação e pós-graduação que tinham como tema este movimento. Aqui o Hiphop “dá o que falar”, e por meio dele são abordados temas como linguagem, economia, tecnologia, religião, racismo, gênero, mobilização social, juventude, educação, desigualdades, identidade, agência social, e etc.
Meu projeto de pesquisa tem como objetivo sistematizar e registrar o diálogo político-cultural entre jovens Hiphoppers de São Paulo e Nova Iorque durante o final da década 1980 e durante os anos 1990. Nino Brown tem contribuído de forma única com essa pesquisa, disponibilizando seu acervo pessoal.

Figure 2 - Eu, na entrada do Hiphop Archive.

Entre os Institutos mais renomados dentro da Harvard, o WEB Du Bois Institute, atualmente coordenador pelo Professor Dr. Henry Louis Gates Junior, usufrui de um generoso espaço para receber seus pesquisadores, de um corpo administrativo excelente, de recursos e infra-estrutura fundamentais para o desenvolvimento de uma boa investigação acadêmica. É de brilhar os olhos! O melhor de tudo é saber que um espaço como esse, com todo o reconhecimento que lhe é merecido, abriga o prestigioso “The Hiphop Archive”.
Criado em 2002, o arquivo de Hiphop foi idealizado e é coordenado pela Dr. Marcyliena Morgan (http://www.marcylienamorgan.com/), professora do Departamento de Estudos Africanos e Afro-Americanos da Harvard. Marcy Morgan (carinhosamente), em seu livro “The Real Hiphop”, relata que no começo de seus estudos sobre o  Hiphop queria que este movimento tivesse o mesmo grau de respeito que qualquer outra área no mundo acadêmico, e que o amor ao conhecimento e ao senso de justiça fundamentais nessa cultura se tornassem parte da cultura acadêmica. Ela também é Hiphop!

Figure 3 - Professora Marcy Morgan - The Hiphop Archive


         O “The Hiphop Archive” busca o empoderamento do Hiphop e acredita que este movimento transforma nossos pensamentos e nossas vidas. Tem como  missão reunir pesquisadores, estudantes, artistas, e ativistas por meio de  bolsas de estudos e desenvolvimento de pesquisas norteadas pelo conhecimento, arte, cultura, materiais, organizações, movimentos e instituições produzidas pelos Hiphoppers. Prestigiando as produções desta cultura, o arquivo elabora e desenvolve coleções, atividades de investigação/pesquisa, organiza e financia eventos e adquire materiais sobre a cultura Hiphop nos EUA e no mundo.

Figure 4 - Festa de fechamento do semestre - The Hiphop Archive

       Ao me identificar com os ideais do “The Hiphop Archive” e com o trabalho da Professora Marcyliena Morgan, resolvi trazer um pouco do Hiphop brasileiro para esse espaço, levando em consideração as particularidades de nossa história. Passei parte do ano de 2011 organizando alguns materiais, os quais eu trouxe para o arquivo com o objetivo de construir uma seção sobre Brasil, e agradeço (em ordem alfabética) Dexter, Fábio Rogério, King Nino Brown, Kl Jay, Márcio Macedo, Marcio Santos (Assessoria de Hiphop), Nuno Mendes, Rappin Hood, Sistema Negro, Suelaine Carneiro, Tiely Queen, e Toni C pelos materiais enviados e a caminho que contribuíram para a construção de uma coleção sobre o Hiphop paulista.

Figure 5 - Um pouco da coleção Brasileira no The Hiphop Archive.

          A coleção sobre Brasil é composta de livros, dissertações, teses, documentos, revistas, CDs, DVDs, notícias em jornais, pôsteres e mixtape. Quem tiver interesse de enviar materiais sobre o Hiphop Brasileiro basta postar para “The Hiphop Archive – 104 Mt. Auburn Street, 3R floor, Cambridge, MA, ZIP: 02138” e enviar um email para jsantos@fas.harvard.edu ou santos.jaquelinelima@gmail.com . O “The Hiphop Archive” recebe pesquisadores e ativistas de todo o mundo e o acesso aos materiais é gratuito.

Figure 6 - Revista Pode Crê na vitrine do Hiphop Global.

Para finalizar, gostaria de dizer que o “The Hiphop Archive” deu uma contribuição única para a minha vida acadêmica e política. Estou tendo contato com materiais importantes produzidos por acadêmicos e ativistas nos EUA e na Diáspora. O WEB Du Bois Institute nos proporciona o contato com importantes intelectuais, artistas e personalidades que estão produzindo sobre a temática negra, o The Hiphop Archive tem um acervo bibliográfico, discográfico e videográfico fenomenal para quem se propõe a estudar Hiphop, e a Harvard University oferece um conjunto de bibliotecas indescritível.
           Voltarei para o Brasil cheia de ideias, fortalecida pelo Hiphop e fortalecendo este movimento.

Afro Imagens: Política, Moda e Nostalgia


Referência[1]
            Angela Davis (1994)[2]
Traduzido por Jaqueline Lima Santos[3]


Não muito tempo atrás, na cidade de São Francisco, eu assisti uma peça realizada por mulheres presidiárias e ex-presidiárias em colaboração com “Bay Area” performance de mulheres artistas.  Depois desse show, fui para os bastidores da “green room”, onde as mulheres  reclusas, vigiadas por policiais estacionados em frente a porta, estavam celebrando com suas famílias e amigos. Por ter trabalhado com algumas dessas mulheres na prisão, eu queria parabenizá-las no show. Uma delas introduziu-me para seu irmão que a princípio respondeu ao meu nome com  um olhar inexpressivo. A mulher o repreendeu: “Você não sabe quem é Ângela Davis? Você deveria estar envergonhado”. Repentinamente um lampejo de reconhecimento atravessou sua face. “- Oh”, ele disse, “- Ângela Davis, a Afro”.
Eu acho que esses tipos de respostas são dificilmente excepcionais, e é tanto humilhante quanto degradante descobrir que uma única geração após os eventos que me construíram como uma personalidade pública relembram-me pelo meu penteado. Isto é humilhante porque isto reduz uma política libertária a uma política da moda; isto é degradante porque esses encontros com uma geração mais jovem demonstra a fragilidade e inconstância de imagens históricas, particularmente aquelas associadas com a história Afro-Americana. Este encontro com o jovem que me identificou como “A Afro”  me fez relembrar de um recente artigo publicado na revista New York Times, onde fui listada como uma entre as cinquenta modas (leia: penteado) mais influentes ao longo do século passado[4]. Eu continuo achando irônico que a popularidade do Afro (Black Power) é atribuída a mim porque, na verdade,  eu fui rivalizada por uma série de mulheres – tanto figuras públicas e mulheres que eu encontrei no meu cotidiano – quando eu comecei a usar meu cabelo natural no começo dos anos 1960.


Mas não é meramente a redução do histórico político à moda contemporânea  que me enfurece. A distinção de ser conhecida como “a Afro” (Black Power) é largamente resultado de uma economia particular de imagens jornalísticas em que a minha é uma das poucas que tem sobrevivido nas últimas duas décadas. Ou talvez a autêntica segregação dessas imagens fotográficas causaram a minha entrada na então dominante cultura jornalística justamente pela virtude da minha presumida criminalidade. Em todo o caso, isto tem sobrevivido, desconectado do contexto histórico em que  surgiu, como moda (fashion). A maioria dos jovens Afro-Americanos que são familiarizados com o meu nome e os vinte e cinco anos dessa imagem têm encontrado informações em fotografias, filme/clipes, vídeos musicais e em algumas montagens da história negra em livros populares e revistas. Dentro do contexto interpretativo em que eles aprendem a situar essas fotografias, o elemento mais destacado é o penteado (hairstyle), entendido menos como uma declaração política do que como “fashion”.
A espantosa circulação contemporânea de fotos e imagens fílmicas dos Afro Americanos tem múltiplas e contraditórias implicações. Por um lado, ela mantém a promessa da memória visual de velhas e passadas gerações, tanto de pessoas conhecidas como de quem não alcançou a proeminência pública. Contudo, ai está também o perigo em que esta memória histórica pode tornar-se ahistórica e apolítica. “Fotografias são relíquias do passado”, escreveu John Berger. Elas são “vestígios do que aconteceu. Se a existência tomar este passado sobre si mesma, se o passado tornar-se uma parte integrante do processo em que as pessoas fazem sua própria história, logo todas as fotografias devem readquirir um contexto de vivência, elas devem continuar a existir na hora, ao invés de ser momentos detidos”[5].
No passado eu fui um tanto relutante para refletir mais do que casualmente sobre o poder visual das imagens nas quais eu fui representada durante o período da minha aflição. Possivelmente devido à minha falta de vontade em confrontar aquelas imagens como tendo em certa medida estruturado minhas experiências durante aquela época. A recente reciclagem de algumas destas imagens em contextos que privilegiem o “Afro” como fashion –glamour revolucionário-  tem me levado a reconsiderá-las tanto no contexto histórico em que elas foram produzidas (e em que eu as experimentei pela primeira vez) e dentro do contexto histórico em que elas frequentemente são apresentadas hoje como “momentos capturados”.
Em setembro de 1969 o regente da Universidade da Califórnia me demitiu do meu cargo no Departamento de Filosofia da UCLA por conta da minha associação ao Partido Comunista. Após o verão, acusações de assassinato, sequestros e conspirações foram trazidas contra mim, conectadas com as minhas atividades em nome de George Jackson e os Soledad Brothers. A circulação de várias imagens fotográficas sobre mim – feitas por jornalistas, policiais a paisana, e ativistas do movimento – desempenharam um papel importante tanto ao mobilizar a opinião pública contra a minha pessoa como ao desenvolver uma campanha que foi responsável pela minha absolvição.
Vinte e cinco ano depois, muitas dessas fotografias vêm sendo recicladas e recontextualizadas de formas que são ao mesmo tempo emocionantes e perturbadoras. Com a primeira circulação pública das minhas fotografias, eu fui intensamente consciente do poder invasivo e transformador da câmera e do contextualização ideológica das minhas imagens, o que deixou-me com pouca ou nenhuma agência. Por um lado eu fui retratada como uma conspiradora e monstruosa comunista (isto é, anti-Americana), cuja rebeldia natural dos cabelos simbolizava a militância negra (isto é,  anti-brancura). Algumas das primeiras  mensagens de ódio que recebi tendiam a ruir sobre a Rússia e a África. Foi-me dito: “Volte para a Rússia” e frequentemente na mesma sentença (referindo-se ao meu cabelo) “Volte para a África”. Por outro lado, retratações simpáticas tendiam a interpretar a imagem – usualmente com a minha boca amplamente aberta – como a de uma carismática e áspera  revolucionária pronta para liderar as massas para a batalha. Desde que eu não me considero monstruosa e nem carismática, eu me senti basicamente traída por ambas explicações: violada na primeira descrição e deficiente na segunda.


Quando eu fui demitida pelo regente da Universidade da Califórnia em 1969, uma variedade de fotografias apareceu nos jornais, revistas e televisão durante todo o ano. Contudo, foi até acusações criminais serem movidas contra mim em conexão com Marin County disparar para que fotografias se tornassem o que Susan Sontag tem chamado em parte de “the general furniture of the environment” (mobiliário geral do ambiente)[6].
Como tal, eles realmente começaram a me assustar. Um ciclo de terror foi iniciado pela decisão do FBI em me declarar uma entre os dez criminosos mais procurados. Contudo, eu tinha sido clandestina por mais de um mês antes de realmente ver as fotografias que o FBI tinha decidido usar como pôster, eu poderia imaginar como eles viriam a me retratar e assim tentei criar para mim mesma uma aparência que seria marcadamente diferente da que foi definida como “armada e perigosa”. Os adereços que eu usei consistiam em uma peruca com cabelos pretos e lisos, cílios longos e falsos, sombra nos olhos, base, e um blush que eu jamais imaginei usar em público. Eu nunca havia tentando seriamente me auto-apresentar como glamurosa, mas o glamour foi o único visual possível para anular a possibilidade de ser percebida como uma revolucionária. Eu nunca poderia imaginar que a mesma imagem revolucionária que eu procurei camuflar com glamour, seria, na próxima geração, glamurosa e nostálgica.


 Após o cartaz do FBI ser divulgado nas agencias dos correios, prédios governamentais, em programas de televisão, e no The FBI, a revista Life publicou uma edição provocativa na qual eu era o tema de capa. Ilustrada com fotografias da minha infância até a UCLA, o artigo examinava as razões para o meu suposto abandono de uma trajetória estável em direção ao sonho da classe média Americana a fim de conduzir a vida incerta de uma “Black revolutionary”. Considerando a ampla circulação dessa revista ilustrada[7], eu vivenciei algo semelhante ao que Barthes referiu-se quando escreveu “Eu sinto que a fotografia cria o meu corpo ou mortifica-o,  de acordo com o seu capricho (Desculpas deste poder mortífero: alguns Communards pagaram com as suas vidas pela sua própria vontade ou  mesmo pela ânsia de entrincheirar-se: derrotados, eles foram reconhecidos pela Polícia de Thier e carregados, quase todos)[8]. A fotografia na capa dessa revista foi amplamente publicizada, acessada por muitas pessoas, talvez mais do que os pequenos retratos no pôster do FBI.  Tendo confrontado minha própria imagem em uma loja onde eu comprei a revista, eu fui convencida de que o chefe do FBI, J. Edgar Hoover, conspirou para o aparecimento desta capa. Mais do que qualquer outra coisa, isto pareceu-me ser uma glorificação do cartaz de procurada.  Além disso, o texto da matéria deu uma explicação muito convincente do porque essas imagens deveriam ser associadas com armas e perigo.



A foto na capa da minha auto-biografia, publicada em 1974, foi feita pelo renomado fotografo Phillipe Halsman[9]. Quando eu entrei no seu estúdio junto com Toni Morrison, que foi minha editora, a primeira questão que ele fez para nós foi se trazíamos a jaqueta de couro preta. Ele revelou que queria recriar com a sua câmera um visual simbólico de representação da militância negra: jaqueta de couro (uniforme do Partido dos Panteras Negras), penteado Afro, e punho erguido. Nos tivemos  que convencê-lo a me fotografar em uma postura menos previsível. Recentemente, em 1993, o poder de persuasão desses estereótipos visuais ficaram claros para mim quando eu tive que insistir que Anna Deavere Smith repensasse sua representação sobre mim em sua peça teatral “Fires in the Mirror”, o que inicialmente  se baseou em uma jaqueta de couro preta como seu principal suporte.


Até agora eu tenho me concentrado primeiramente na minha própria resposta àquelas imagens fotográficas, ao que pode não ser o mais interessante ou produtivo caminho para abordá-las.  Enquanto que a mais óbvia evidência do seu poder foi a parte em que eles se desempenharam em estruturar a opinião das pessoas sobre mim como uma “fugitiva”  e “prisioneira política”, seu mais amplo e mais sutil  efeito foi o modo em que elas serviram como imagens genéricas de uma mulher negra que usava seu cabelo natural. A partir das histórias correntes que eu tenho ouvido nos últimos vinte e quatro anos (e continuo a ouvir), eu deduzo que centenas, talvez milhares de mulheres negras usando o cabelo Afro foram abordadas, arrastadas e assediadas pela polícia, o FBI, e agentes de imigração durante os dois meses da minha clandestinidade. Uma mulher, a qual me disse que esperava poder servir como uma “isca” por conta da sua pele parda e grande cabelo natural, esteve obviamente consciente do modo como as fotografias construíram representações genéricas de jovens mulheres negras. Consequentemente, as fotografias identificaram um vasto número de Angelas contemporâneas que usavam cabelos naturais (quer seja pele parda ou escura) como alvos de repressão. Este é o conteúdo histórico oculto que se esconde por trás da ininterrupta associação do meu nome com o “Afro” (Black Power).
Uma jovem negra, minha ex-aluna, tem usado o cabelo Afro durante os últimos dois meses. Raramente passa um dia, ela me disse, que não seja cumprimentada com gritos de “Angela Davis” por desconhecidos. Aliás, durante os meses que precederam a escrita deste artigo, eu tenho recebido um assombroso numero de pedidos de entrevistas por jornalistas que estão escrevendo histórias sobre “o ressurgimento do Afro”. O número dessas recentes solicitações foi ocasionado pelo layout de uma seção fashion publicada em março de 1994 na  revista Vibe, o qual foi intitulado “Free Angela: Actress Cynda Williams as Angela Davis, a Fashion Revolutionary”. A propagação consiste em oito páginas de fotos da Cynda Williams (conhecida pelo seu papel como cantora no filme do Spike Lee “Mo’ Better Blues) em poses que parodiam minhas fotografias durante o início dos anos 1970. O trabalho do estilista Patty Wilson, no qual o layout é descrito como “docufashion”, usou modernos vestuários para imitar o estilo Angela Davis da década de 1970[10].
Algumas dessas imagens são tentativas simplistas de recriar fotos retiradas pela imprensa durante a minha prisão, o julgamento e depois da minha libertação.  Outras podem ser caracterizadas como obras de diversas origens (pastiche)[11], desenhando elementos, como um homem negro de jaqueta de couro, dos contemporâneos estereótipos da militância negra da era 1960-70. Eles incluem uma cena de prisão, com a modelo situada entre dois policiais uniformizados e vestindo uma blusa de cetim preta (o que me faz lembrar do top que eu estava usando no dia da minha prisão). Tal como seus cabelos, os óculos são incrivelmente semelhantes aos que eu usava. Há duas cenas do tribunal em que Willians usa uma enorme peruca Black Power , pequenas roupas e, em uma delas, algemas. Ainda, outra gira em torno de um fumante de charutos, barbudo, vestido com uniforme e uma arma coldre na cintura, obviamente pretendendo evocar Che Guevara. (Mesmo as fadigas podem ser compradas – from Cheap Jack’s). Não há tal coisa como a sutileza dessas fotos, porque o ponto de propagação desta matéria é representar um vestuário associado aos movimentos revolucionários do início dos anos setenta como moda revolucionária nos anos noventa, o logotipo de sexagésimo aniversário do Partido Comunista tem sido alterado em uma das fotos como “1919-1971” (em vez de 1979).  E a roupa anunciada na foto, para a qual este logo é um pano de fundo, é decorada com pinos em botões onde pode-se ler “Free All Political Prisioners” (Liberdade para Todos os Prisioneiros Políticos).
As imagens que eu acho mais inquietantes, no entanto, são duas pequenas fotografias faciais de Willians vestindo uma enorme peruca Black Power em uma reprodução do pôster do FBI que é, de outra forma, inalterado, exceto no uso das palavras “Free Angela” impressas em um negrito vermelho na parte inferior do documento. Apesar do fato que as imoderadas fotos realmente não permitem uma visão ampla das roupas que William veste, os tops e óculos (novamente, em duas das fotografias fictícias, muito similares aos que eu usei) são listados como itens compráveis. Este é um dos mais evidentes exemplos do modo como a história particular do meu processo legal é esvaziada de todo o conteúdo para que possa servir como um mercantilizado pano de fundo para a publicidade. O modo em que esta publicização fornece um pretexto histórico de algo semelhante ao reinado do terror para incontáveis jovens negras é efetivamente apagado pela sua utilização como suporte para venda de roupas e promoção de uma moda nostálgica dos anos 1970. O que também se perde nesta substituição nostálgica da memória histórica – nestes “momentos de prisão”, fazendo uso das palavras de John Berger – é o envolvimento ativista de um vasto número de mulheres negras em movimento que são agora representadas ainda mais com contornos masculinos do que elas realmente apresentam no momento.


Sem empenhar os inúmeros debates ocasionados pelo artigo de Fredric Jameson “Postmodernism and Consumer Society”[12], eu gostaria de sugerir que a sua análise de “filmes de nostalgia” e suas contrapartidas literárias, que são “romances históricos só na aparência”,  podem fornecer um ponto de partida para a interpretação deste gênero publicitário chamado “docufashion”; “nós parecemos condenados a procurar o passado histórico”, escreveu Jameson, “através das nossas próprias imagens “pop” e estereótipos sobre o passado, que por si só permanecem para sempre fora de alcance”[13]. Talvez por também assumir o chamado de Berger para uma “fotografia alternativa”, poderíamos desenvolver estratégias para engajar imagens fotográficas como as que foram evocadas, procurando transformar ativamente seus contextos interpretativos em educação, cultura popular, mídia, organização comunitária, e assim por diante. Particularmente em relação as imagens históricas Afro-Americanas, precisamos encontrar caminhos de incorporá-las dentro da “memória político e social, ao invés de usá-la como um substituto que estimula o enfraquecimento de tal memória”[14].



[1] Texto publicado originalmente sob o título de “Afro Images: Politics, Fashion, and Nostalgia” na Critical Inquiry, Vol. 21, n­º 1, Autumn, 1994, pp.37-45, pela The University of Chicago Press..
[2] Professora do programa de História da Consciência na Universidade da Califórnia, em Santa Cruz. Autora de “Angela Davis: An Autobiography” (1974), “Women, Race, and Class” (1981), e “Women, Culture, and Politics (1989).
[3] Mestre em Ciências Sociais/Antropologia pela UNESP, “research scholar” no The Hiphop Archive – WEB Du Bois Institute for African and African American Research/Harvard University.
[4] Ver Carrie Donovan, “Fifty Who Mattered Most”, na New York Times Magazine, de 24 de Outubro de 1993, pp. 122-23. A legenda da leitura fotográfica: “Angela Davis (b. 1994): suas fotografias nos anos 1960 com seu indomesticável Black Power agitou  o orgulho negro. Política torna-se fashion” (P. 123).
[5] John Berger, em “About Looking” (Nova Iorque, 1980), P. 57.
[6] Susan Sontage, em “On Photograph” (Nova Iorque, 1977), P. 21.
[7] Ver “The Path of Angela Davis: From Promising Childhood to Desperate Flight”, Lifes, 11 de Setembro de 1970, pp. 20-27. Durante o começo de 1960 a revista Life circulou entre aproximadamente quarenta milhões de pessoas. Ver Gisele Freund, Photograph and Society (Boston, 1980), p. 143.
[8] Roland Barthes, Camera Lucida: Reflections on Photography, trans. Richard Howard (Nova Iorque, 1981), p. 11.
[9] Ver Angela Davis, “Angela Davis: An Autobiography” (Nova Iorque, 1974).
[10] “Free Angela: Actress Cynda Willians as Angela Davis, A Fashion Revolutionary”, Vibe 2 (Mar. 1994):16.
[11] Onde lê-se “como obras de diversas origens”, no texto original em Inglês Angela Davis usa o termo “pastiche” sobre o qual afirma em nota de rodapé: “Eu uso o termo pastiche tanto no sentido usual de um potpourri (mistura) de ingredientes díspares e no sentido em que Fredrick Jameson usa-o”. “Pastiche é, como paródia, a imitação de um peculiar e único estilo, o uso de uma máscara estilística, discurso em um idioma morto: mas isto é uma prática neutra como mimetismo, sem motivo oculto da paródia, sem o impulso satírico, sem riso… Pastiche é paródia vazia, paródia que perdeu o senso de humor” (Fredrick Jameson, “Postmodernism  and Consumer Society”, in “The Anti-Aesthetic: Essays on Postmodern Culture”, ed. Hal Foster (Port Townsend, Wash., 1983), p. 114).
[12] Ensaios de Jameson tem aparecido em várias versões. A que eu tenho consultado é referenciada na nota de rodapé anterior. Agradeço Victoria Smith por  sugerir que eu relesse este ensaio em conexão com a Vibe.
[13] Jameson, “Postmodernism and Consumer Society”, p. 118.
[14] Berger, About Looking, P. 58.

sábado, 21 de abril de 2012

Mano Brown - um belo depoimento


O texto abaixo foi escrito por Mano Brown, em 2003. O interessante é que ele fala, de uma forma que a maioria consegue entender, o que tentam falar sobre relações raciais no ambiente academico brasileiro.

"Agradecimentos a toda putada real portuguesa e européia em geral pelo estrago que fizeram ao longo dos séculos no berço da humanidade - África e seus descendentes.

Thank you very much USA, por patrocinar a exploração, a inflação, a fome e a miséria do nosso povo.

São Paulo à tarde, uma criança negra, suja, aparentemente doente, caminha devagar até o farol. Pede um dinheiro a um cara branco num Diplomata preto. Ele dá uma merreca e sai todo orgulhoso, se achando o cara. No segundo farol, um moleque negro, 17 anos aproximadamente, atravessa entre os carros. O cara do Opala saca uma pistola automática no console do carro com os olhos arregalados. Ele tem medo, fecha o vidro do carro. O Brasil é isso.

Negro bom é aquele que não oferece perigo. Sem instrução, sem estrutura de família, sem ambição. Homem negro seja um bom cidadão. Acorde às 6h, pegue o ônibus às 7h, entre no trabalho às 8h, almoce às 12h, vá embora às 18h. Ganhe mais ou menos US$70 por mês. Depois de muita correria, cale a boca e vá dormir que amanhã cedo é dia de "branco" - isso se você for um privilegiado que ainda tem um emprego e trabalha de carteira assinada e tudo, numa dessas multimilionárias empresas estrangeiras. Não exija muito. Seu pai não exigiu, seu avô também não, seu bisavô muito menos. Ele era escravo. O bisavô do seu patrão também era patrão.

Hereditariamente, ano a ano, tudo no devido lugar, tudo pela branca ordem, explorados e exploradores. Tudo na mais perfeita ordem e progresso. O povo africano foi trazido seqüestrado para o Brasil numa época em que o continente africano estava em ascensão, para ser utilizado como animal doméstico, sem direito a opinião própria, religião e, pasmem senhoras e senhores católicos, sem direito a comer, com exceção dos restos. Não é de agora que o Brasil tem cadeira cativa entre os hipócritas e mentirosos.

Catolicismo hipócrita que até nos dias de hoje ilude nosso povo com as promessas de vida melhor após a morte, enquanto eu assisto meu povo morrer mais cedo por maus tratos e desilusões. Igreja hipócrita que deu a sentença de morte cerebral e física lenta e dolorosa ao povo negro, aceitando naturalmente um dos piores momentos da História em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Amém.

Hoje, o sistema tenta tapar o sol com a peneira fazendo uma COHAB aqui, outra ali - sempre bem longe do centro, é claro.

Muitas pessoas insistem em perguntar porque os afro-americanos conseguiram espaços em tantos setores da sociedade americana e os brasileiros não conseguiram muita coisa, além de Pelé e ... Não sabemos com quem lutar, todos dizem que são nossos amigos. Nos Estados Unidos a arma é apontada pela frente, os brancos de lá são menos covardes. No Brasil, a arma é apontada pelas costas. A segunda posição é mais cômoda pra quem segura a arma e torna a defesa mais difícil para quem é o alvo. Um exemplo simples:

Ku Klux Klan - organização de extrema direita branca que agia no sul dos Estados Unidos atacando pessoas negras declaradamente;

Grupos de Extermínio - os "pé-de-pato", como são conhecidos aqui na zona sul de São Paulo. Agem em São Paulo e Rio de Janeiro, matando mais que a KKK e o FBI juntos. Só que não é divulgado que a cada dez mortos, sete são negros;

Justiceiros - grupos de extrema direita, formado por pessoas brancas, negras, pardas, policiais, bandidos, comerciantes ...

Eu cresci assistindo televisão pelo menos oito horas por dia e sempre tinha aqueles galãs fabricados dizendo "compre isso, compre aquilo, alugue aquilo outro". Meu povo quando foi abolido por lei não recebeu nada como pagamento, nem indenização, nem terra pra plantar, nem liberdade de escolha. O Brasil é um país capitalista onde as pessoas valem o que têm - propriedades. Meu povo foi roubado e deserdado, não tem propriedade. É FODA! O povo que trabalha na terra não tem terra pra plantar e construir suas casas. Ninguém se responsabiliza, todos tiram o cu da reta.

Meu povo está se recuperando devagar de um nocaute na nuca, sem herança, sem nenhum alqueire e nenhuma mula. Sem apartamentos em Moema, restaurantes na Bela Vista ou lojas nos shopping centers. Sem direito a moradia e escola dignas. Mas está se recuperando sem a ajuda de ninguém. Por enquanto, estamos convencendo nossas crianças que elas não precisam ter longos cabelos louros e olhos azuis pra serem grandes homens e mulheres. Não precisam usar calças da Zoomp ou M. Officer ou andar com braço pra fora nos Tempras e Ômegas. FODA-SE TUDO ISSO. Sem mais, Mano Brown. Capão Redondo (SP), favela. Cada um com seus problemas - Poder para o povo preto - Revolução.

Mano Brown"

domingo, 25 de setembro de 2011

Festa de São Benedito em Tietê: Patrimônio Imaterial da Comunidade Negra?

Jaqueline Lima Santos
Mestranda em Ciências Sociais pela UNESP- Marília


        Segundo Luca (2010), a cidade de Tietê concentrou, no Brasil Império, inúmeras fazendas de café, nas quais trabalhavam um número significativo de negros, estes que em 1868 ajudaram a construir, junto às famílias de fazendeiros, a capela que até os dias de hoje é utilizada para devoção a São Benedito. No dia 05 de julho do mesmo ano é fundada a Irmandade de São Benedito. Após a abolição, as famílias ex-escravizadas resolveram manter-se na região, preservando suas tradições religiosas e culturais que antecedem o fim da escravidão.
No período de escravidão, negros eram proibidos de praticar suas diversas manifestações culturais, porém, achavam maneiras de exercê-las. Entre os espaços que encontravam brechas para manifestá-las estavam nas festas católicas, momento de sociabilidade dos brancos em que os negros poderiam participar, e nos quais aproveitavam para exercer, recriar e fortalecer seus elementos culturais (COUTO, 2008). Isso explica a existência secular de festas católicas populares entre comunidades negras que antecedem a abolição em 1888.
No Brasil, segundo Cavalcanti e Gonçalves (2010), a maioria das festas populares encontraram abrigo no calendário católico, no qual se incorporaram diversas tradições étnicas e culturais.
Na sua 142ª edição em 2010, a Festa de São Benedito em Tietê acontece anualmente, todas as ultimas semanas do mês de setembro, com diversas atividades em celebração a São Benedito. São Benedito é um dos poucos santos negros consagrados pela igreja católica. Filho de negros escravizados que mais tarde foram libertos, São Benedito viveu entre irmãos eremitas de São Francisco de Assis, e é sempre lembrado por sua humildade, sabedoria e solidariedade, além de ser considerado o santo protetor do povo negro. Os cultos religiosos associados a São Benedito estão entre os mais populares no Brasil.
É uma semana de celebração a São Benedito, com atos simbólicos em sua homenagem, como o repique dos sinos da igreja matriz de São Benedito e estocar de rojões, novenas, bênçãos, missas, levantamento de mastros, e no ultimo dia a festa é aberta com missa festiva das irmandades, atividades culturais espalhadas pela cidade, finalizada com uma procissão.
A cidade de Tietê, ao longo de sua história, recebeu a comunidade negra de diversas localidades do estado de São Paulo, e de outros estados do Brasil para celebrar o santo negro. Famílias negras se reuniam em excursões para ir celebrar o seu santo protetor, participando da missa e criando suas rodas de samba pelas ruas da cidade. Hoje a festa recebe cerca de 40 mil visitantes, e a cidade é tomada por manifestações da cultura negra como o samba, rap, samba rock, r&b, charme, e a clássica roda de batuque, que vira a noite do sábado para o domingo no barracão da igreja católica do bairro Santa Cruz, localizado no subúrbio da cidade.
Por seu impacto social, político, cultural e econômico esta festa integra o calendário turístico da Secretaria de Esporte e Turismo do Estado de São Paulo através da lei nº 1162, de 2003, tendo seu parecer favorável pelas Comissões de Justiça e Esportes em 2005.

Um olhar sobre a Festa

Pretendo fazer, neste tópico, um relato etnográfico das minhas primeiras impressões sobre a Festa de São Benedito. Clifford Geertz (1989) afirma que a etnografia é uma descrição densa, ou seja, “fazer etnografia é como tentar ler um manuscrito estranho, desbotado, cheio de elipses, incoerências, emendas suspeitas e comentários tendenciosos, escritos não com os sinais convencionais do som, mas com exemplos transitórios de comportamento modelado”.
Era sábado, 27 de setembro de 2003. Estávamos eu e algumas amigas da cidade de Sorocaba no costumeiro ritual[1] que eu já acompanhava há alguns anos, mas que não participava, e que, neste ano, por curiosidade que se tornava cada dia mais intensa, resolvi participar. Era o ritual preparatório para a Festa de São Benedito que se finaliza todo último domingo do mês setembro na cidade de Tietê, interior de São Paulo, com missa e procissão em celebração ao santo negro e um expressivo festejo que toma as ruas da cidade.
            Um mês antes da festa se iniciava a venda das passagens em excursões familiares, comunitárias, das irmandades religiosas, grupos de jovens, entre outros. Os próximos dias eram acompanhados de grandes expectativas em relação à viagem que não durava mais do que uma hora e trinta minutos. Havia todo um planejamento para o passeio: cabelo, roupa, instrumentos, ornamentos religiosos e alimentação.
            No sábado, quando estava reunida com as minhas amigas, a preocupação era com uma estética que desse ênfase a sua negritude: o que fazer com o cabelo, qual tipo de roupa usar. Já a de seus pais era com os possíveis atrasos que poderiam atrapalhar o acompanhamento da missa, com a alimentação e com a presença dos filhos na procissão, já que os jovens, em sua maioria, costumavam não participar dos rituais religiosos da festa e se espalhavam pelas rodas de samba, entre as multidões em frente aos palcos de apresentações e discotecagem musical, circulavam de cima a baixo  na cidade.
            Domingo pela manhã, 28 de setembro, aproximadamente 7h00, inúmeros ônibus se acumulavam em frente ao Terminal Santo Antônio, centro de Sorocaba, tendo com destino a cidade de Tietê. Além desses, diversas excursões saiam de comunidades e igrejas católicas. Onde havia pontos de encontro rumo à festa algumas coisas eram comuns: famílias reunidas, uma maioria de pessoas negras com cabelos trançados, Black Power e dreads, instrumentos de percussão, caixa de isopor, samba como repertório musical.
            A festa se iniciava com a partida dos ônibus, onde os instrumentos, os corpos e as vozes inauguravam sua funcionalidade do dia: cantar, dançar e celebrar a São Benedito. Na estrada os ônibus se cruzavam aos montes, formavam fileiras, pessoas se cumprimentavam pelas janelas e, nas paradas realizadas em uma viagem tão curta, formavam-se rodas de samba e começavam os intercâmbios entre excursionistas de várias cidades.
            Ao chegar à cidade percebo uma multidão de pessoas, sendo a maioria negras e negros, espalhados pelas ruas, diversos ônibus e outros tipos de transporte coletivo procuravam um lugar para estacionar. Não havia outro espaço para receber os romeiros além da igreja. A praça, a rua e a beira do rio formavam o ambiente da festa, todos os comércios, com exceção de alguns bares, estavam de portas fechadas. Não haviam restaurantes e lugares organizados para nos receber, o que me fez entender a preocupação das pessoas em preparar a alimentação antes da viagem. Alguns armavam churrasqueiras nas calçadas, outros carregavam suas bebidas em caixas de isopor, além de quem aproveitava a festa para ganhar dinheiro vendendo bebida de forma ambulante ou montando suas barraquinhas clandestinas.
            A cada esquina havia uma roda de samba, identifiquei a praça central como ponto de encontro principal. Na beira do rio encontravam-se palcos nos quais discotecavam algumas equipes de som e se apresentavam grupos de RAP. As pessoas subiam em direção à praça e desciam em direção aos palcos, formando, nas ladeiras, pontos de encontro onde os jovens aproveitavam para conhecer novas pessoas.
            Percebi também que os apartamentos da região central ficavam com janelas fechadas, pareciam estar vazios. Fiquei sabendo posteriormente, por uma moradora da cidade, que era costume entre os moradores locais se retirar de Tietê no dia em que estava prevista a celebração para São Benedito, pois as pessoas “não gostavam do festejo e nem do tipo de turistas que o freqüentam”.
            Foi expressiva para mim, naquele momento, a forma como os turistas, especialmente os jovens, destacavam elementos que os faziam sentir-se mais negros, seja através dos cabelos, das músicas, das danças e das vestimentas que faziam referências ao universo do samba e do Hip Hop. Era uma multidão de pessoas negras afirmando sua identidade em um mesmo espaço, expressando elementos escondidos no cotidiano, talvez pelos seus ambientes de trabalho ou convivência em espaços que valorizam outro tipo de estética. A disputa pela beleza em Tietê tem como referência os cabelos crespos, os modelos de trança, os dreads, e a cor da pele.
Outro fator interessante é que aqueles que identifiquei como brancos estavam, em sua maioria, com os cabelos trançados, e se vestiam de acordo com o predominante na festa. Parecia-me, para os jovens negros, que uma das importâncias da festa era a de se sentir maioria. Ali era, em todos os sentidos, um espaço para ser e afirmar-se como negro sem nenhum receio disto.
            Ao observar a festa e entrar nas rodas de diálogo, percebi que a maioria dos jovens romeiros não fazem nenhuma discussão sobre identidade e a questão do negro no Brasil, e não demonstram saber da história que os levou até ali, sobre a tradicional ida das famílias e a continuidade que estão dando a este processo. O importante para eles é afirmar, através da estética, ser negro. Ao conversar com as pessoas mais velhas percebo que há outra compreensão sobre “estar na festa” todos os últimos domingos de setembro, pois eles conseguem fazer uma ligação entre o espaço, tempo, crença e família.
            A cada passo fui me impressionando com a dimensão da festa, contaria, naquele momento, cerca de 60 mil pessoas, porém, dados da prefeitura apontam para um fluxo de 40 mil turistas na cidade, mais do que o total da população local, aproximadamente 37 mil habitantes[2].
            O que me impressionou também foi o fato da festa não auferir recursos financeiros necessários para receber este número de turistas, o que deixa a cidade deteriorada após a celebração. A administração local não conseguiu investir, nestes anos de festa, R$1,00 por cada visitante recebido, segundo depoimentos de participantes do Conselho Municipal da Comunidade Negra de Tietê. O número de banheiros eram insuficientes, não haviam serviços de alimentação regulares, a segurança também não era organizada. A falta de investimento alimentava o argumento dos moradores locais de que aquele “bando de negros estão chegando para destruir a cidade”.
            No período da manhã fui até a Igreja de São Benedito e percebi que boa parte dos festeiros não chegavam até ali. Neste templo encontra-se uma unha de São Benedito que foi trazida da Sicília séculos após a sua morte (1568), em 1971. Ela fica dentro de um medalhão que circula com o sacerdote nos dias da festa para abençoar os fiéis (LUCA, 2010).
Também fui à procissão e não visualizei mais do que 5 mil pessoas acompanhando o cortejo, no qual aparecem os seguintes elementos:

O Guião da Irmandade: É uma grande cruz preta que abre o cortejo, é ornada de uma Bandeira Branca, triangular, terminada em dois cordões que os irmãos (meninos) seguram a fim de que a bandeira não desfralde ao vento.
O Quadro do Menino Jesus: revive a devoção de São Benedito por Deus e o grande amor que o santo edicava às crianças. Atrás do andor seguem as meninas de até 5 anos, usando vestidos longos.
Os Sete Dons do Espírito Santo: referem-se às graças da 3ª Pessoa que sempre estava com ele, iluminando-o para que se colocasse acima dos teólogos e doutores que dele se aproximavam. É representado por uma andor levando uma pombinha e do qual saem 7 fitas vermelhas, sendo as pontas seguras por meninas, vestidas de  branco, envoltas em faixas com inscrição dos dons. Quadro de Santa Úrsula e suas Companheiras: Lembra a devoção por Santa Úrsula.
As Duas Coroas de São Benedito: Representam a obediência e a caridade, características que marcaram a vida do Santo. (LUCA, 2010)

            Este dia me despertou diversas reflexões e, nos anos posteriores, até 2010, só faltei uma vez a esta celebração. Os questionamentos se multiplicaram quando, em 2004, ao chegar na cidade, ouvi os boatos de que a festa iria acabar. No ano seguinte, 29 de setembro de 2005, fomos recebidos pelas portas dos fundos da cidade. A prefeitura terceirizou a organização da festa e, na tentativa de retirar a festa da região central onde é localizada a igreja de São Benedito, a deslocou para a beira da rodovia, um local chamado FAIT onde são realizados outros locais. Nenhum ônibus entrava dentro da cidade, todos paravam em um estacionamento organizado ao lado da rodovia, e a idéia era que os romeiros festejassem naquele espaço onde foram armados dois palcos.
            O que me impressionou neste ano foi o fato de que mesmo a festa tendo sido deslocada para o outro lado do rio, na beira da rodovia, as pessoas ocuparam os mesmos espaços dos anos anteriores, atravessaram a ponte e se deslocaram para a praça central. Parecia-me que o evento tinha ficado ainda maior, e via-se milhares de pessoas circulando de um lado a outro.
Embora seja um espaço que consegue mobilizar um número significativo de turistas, arregimentados, há mais de um século, pela celebração a São Benedito, considerado santo protetor do povo negro, e de fazer florescer, naquele momento, a identidade dos mesmos, o espírito expresso durante a festa parece ser limitado no cotidiano das pessoas. Para exemplificar este argumento, reproduzo o diálogo realizado entre duas jovens negras, e que já vi se repetir de diversas formas, no dia 28 de setembro de 2004, as 21h00, horário de retorno do festejo:

RB – Tenho que chegar em casa e esquentar o pente, amanhã é dia de labuta.
BN – Verdade, tenho que arrumar a cabeça senão o chefão me manda embora.
RB – Hahaha, ano que vem tem mais.

            Depois disso subiram no ônibus e eu tive a sensação de que o “dia dos pretos” tinha acabado. Logo, um amigo militante me respondeu: “- Tem uma poesia do Solano Trindade que diz que as mulheres negras têm, no carnaval, um dia de rainha, e o resto do ano são escravas”.
            A partir de 2006 ativistas dos Movimento Negro, Conselho da Comunidade Negra local, e integrantes dos Clubes Negros da cidade se reorganizam preocupados com os rumos da festa. Pela falta de investimentos e cuidados com a celebração nos últimos anos, a festa tem se tornado cada dia mais deteriorada. O objetivo apontado era o de valorizar a festa, politizar o público e criar estrutura para a sua continuidade.
            Após acompanhar a festa durante estes anos descritos, surgiu a preocupação com os temas que ela suscita, os agentes que ela envolve, e, principalmente, de como pensar continuidade em um espaço em que não se tem investimento, pouco planejamento, frente o impacto que tem na cidade. Por isso, tenho pensado a dimensão intangível da festa e em como constituir um trabalho que possa torná-la reconhecida como “patrimônio imaterial” com o objetivo de salvaguardá-la.
            Segundo Cavalcanti e Gonçalves (2010), as reivindicações referentes ao patrimônio imaterial envolvem identidade, experiência social, memória compartilhada e narrativa história.

Cultura, Festa, Patrimônio e imaterialidade

A antropologia clássica desenvolveu diversos estudos sobre comunidades com valores, tradições, crenças e modos de vida diferenciados e distantes da realidade vivida no Ocidente. Era tratado como objeto de estudos sempre o “outro”, o “diferente”, o “distante”. Com as grandes navegações, a colonização, a imigração e a globalização, as fronteiras geográficas foram ficando cada vez menores, e a diversidade que habita o mundo cada vez mais próxima. O contato entre diferentes povos deu nova forma as culturas locais, não através de um processo de aculturação, mas de ampliação de seus elementos simbólicos a partir da interação com o novo.
            Segundo Marshall Sahlins (1993), a cultura é uma capacidade singular da espécie humana de organizar as experiências e as ações através de símbolos. Cultura não é a matéria, mas é a forma como o ser humano estabelece suas relações com o mundo, seja ele material ou imaterial.
            A não interpretação de cultura como meio simbólico leva a erros perigosos na prática antropológica; um desses erros foi a busca incessante das diferenças entre as sociedades humanas como um único fim da antropologia. A antropologia, devido a tradição de pesquisas que tinham como perspectiva a diferença e a categorização dos grupos humanos, enfrentou uma em crise enquanto disciplina na segunda metade século XX, na qual  havia a crença de que  as chamadas “culturas primitivas”, no contato com o mundo globalizado, estariam por desaparecer e, logo, a antropologia não teria mais sobre o que se debruçar. Mero engano, exatamente por ser a “organização da experiência e das ações humanas por meios simbólicos” a cultura não pode ser um objeto em vias de extinção, pois no contato com o novo as culturas locais podem não permanecer as mesmas, porém, ganham novos elementos que dinamizam a sua existência.
                Essa ênfase na cultura como instrumento de diferenciação das diversas sociedades humanas surge exatamente para justificar o contexto colonial em que a disciplina estava inserida, pois, ao demarcar as diferenças, sustentava um grau de evolução que justificava a “missão civilizadora” que iria salvar os povos ditos “atrasados”. Sahlins (1993) aponta que cultura, sobre a leitura evolucionista, seria base de sustentação do colonialismo com o objetivo de diferenciar para dominar os povos não ocidentais.

O conceito antropológico de cultura nunca poderia ter sido inventado se não houvesse um teatro colonial que, ao mesmo tempo, tornasse necessário um conhecimento das culturas (com o propósito de controle e dominação) e fornecesse povos colonizados especificamente administráveis pela noção de cultura. Sem o colonialismo, a cultura não poderia ter sido ao mesmo tempo (e com tanto êxito) organizada e organizadora, dada na natureza e regulada pelo Estado. Não apenas muito daquilo que chamamos “cultura” foi produzido pelo encontro colonial, como o conceito mesmo de cultura foi em parte inventado por causa desse encontro” (Dirks, 1992)

            Primeiro a diferenciação cria as categorias superior/inferior, civilizado/atrasado, depois as categorias são utilizadas como base das relações de dominação, desconsiderando a realidade concreta e a capacidade de diferentes sociedades em dinamizar a relação entre o velho e o novo sem sobrepor um ao outro.
            Marshall Sahlins (1993) crítica o fenômeno de aculturação e afirma esse processo não existe, nem mesmo a extinção de uma cultura. O que existe no contato com novos valores e práticas sociais é a intensificação cultural da comunidade local, ou seja, o “desenvolvimento simultâneo de um integração global e uma diferenciação local” onde os novos elementos apresentados servem para fortalecer a cultura de um grupo que dá a eles uma dinâmica e interpretação própria. Sahlins (1993) crítica as antropologias que negam a autonomia cultural dos grupos localizados e diz que quando fazem isso se portam “muito semelhantes ao colonialismo que elas, justificadamente, condenavam”.
            Fazer uma leitura de que esses processos culturais ganham novas dinâmicas e sentidos não significa ignorar a exploração e violência vivenciados por diferentes sociedades no período de colonização, e sim reconhecer que não é unicamente o fenômeno da globalização que interfere nas comunidades locais, mas que elas também oferecem elementos para a interpretação do mesmo, realizando assim o que Sahlins chama e já apresentei acima de intensificação cultural. Por mais violenta que tenha sido a colonização esses grupos não eram coisas, eram sujeitos capazes de organizar simbolicamente os novos elementos impostos ou não no contato com o colonizador.

O que se segue, portanto, não deve ser tomado como um otimismo sentimental, que ignoraria a agonia de povos inteiros, causada pela doença, violência, escravidão, expulsão do território tradicional e outras misérias que a “civilização” ocidental disseminou pelo planeta. Trata-se aqui, ao contrário, de uma reflexão sobre a complexidade desses sofrimentos, sobretudo no caso daquelas sociedades que souberam extrair, de uma sorte madrasta, suas presentes condições de existência. (SAHLINS, 1993, P. 53).


            Não há motivos para a antropologia entrar no pessimismo sentimental em relação ao seu campo de estudo. A cultura não é um objeto em vias de extinção, ela se renova, ganha novos elementos e cabe aos antropólogos de hoje traçar métodos para atender os novos paradigmas dos estudos sobre a cultura. Há um campo vasto para ser estudado, mas antes de tudo ele precisa ser reconhecido além do fenômeno global, levando em consideração as especificidades locais, como os diferentes grupos estão inseridos, interpretam e realizam suas práticas nele.

As culturas supostamente em desaparecimento estão, ao contrário, muito presentes, ativas, vibrantes, inventivas, proliferando em todas as direções, reinventando seu passado, subvertendo seu próprio exotismo, transformando a antropologia tão repudiada pela crítica pós-moderna em algo favorável a elas, ‘reantropologizando’, se me permitem o termo, regiões inteiras da Terra que se pensava fadadas à homogeneidade monótona de um mercado global e de um capitalismo desterritorializado [...]. Essas culturas, tomadas de um novo ímpeto, são fortes demais para que nos demoremos sobre nossas infâmias passadas ou nosso atual desalento. O que se carece é de uma antropologia disposta a assumir seu formidável patrimônio e a levar adiante suas muitas e valiosas intuições. (LATOUR 1996:5 apud SAHLINS, 1997, P. 53)

                Sahlins (1993) afirma que por mais limites que a colonização tenha colocado para os grupos que oprimiu não podemos negar que “esses grupos construíram suas próprias contraculturas, para além e por vezes no interior mesmo dos contextos diretos de sua servidão”.
            A concepção de cultura de Sahlins, ao colocar os sujeitos como agenciadores, elucida como, diante de tantas dificuldades, continua, há 143 anos, existindo a Festa de São Benedito em Tietê, com ou sem estrutura, aceita repudiada por parcela da população local. É a dimensão simbólica que torna presentes corpos humanos para constituir a materialidade da festa todos os últimos domingos de setembro, pois essa tradição encontra-se na memória, e o espaço é uma das referências que a constitui.
Segundo Lowental (1998) a memória é uma fonte fundamental da identidade pessoal e a sua perda priva a vida de significados. Toda a consciência é a soma de todas as nossas experiências e momentos, e os fatos passados sobrevivem nos registros escritos e nas lembranças humanas: “relembrar o passado é crucial para a nossa identidade: saber o que fomos confirma o que somos” (LOWENTAL, 1998, P. 83).

A natureza subjetiva da memória torna-a um guia a um só tempo seguro e dúbio para o passado. Sabemos quando temos uma lembrança, e seja ela verdadeira ou falsa, essa memória relaciona-se de alguma forma ao passado. Até um equívoco da memória envolve recordação, ainda que distorcida, de alguma coisa; nenhuma memória é totalmente enganosa. Na verdade, uma falsa recordação na qual se crê firmemente torna-se um fato por si só. (LOWENTAL, 1998, P. 87)

É importante refletir que embora a memória tenha grande peso quando nos referimos a continuidade, não significa que algumas manifestações culturais tenham que sobreviver somente de forma autônoma, sendo desconsideradas suas importâncias. Vivemos, neste início do século XXI, um momento em que a política de reconhecimento do Estado brasileiro se amplia, elemento que pode dar peso para um fenômeno com o alcance da Festa de São Benedito. O caminho seguido por outras manifestações culturais afro-diaspóricas no Brasil, rumo ao tombamento como patrimônio imaterial, pode contribuir para a salvaguarda deste fenômeno de forma digna, deixando de perpetuar as mesmas dificuldades estruturais.
Segundo a UNESCO, define-se como patrimônio imaterial "as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas - junto com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados - que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural." Ainda, segundo o IPHAN, “o patrimônio imaterial é transmitido de geração em geração e constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função de seu ambiente, de sua interação com a natureza e de sua história, gerando um sentimento de identidade e continuidade, contribuindo assim para promover o respeito à diversidade cultural e à criatividade humana”.
            A patrimonialização vem sofrendo algumas transformações no Brasil como consequência da inclusão das categorias intangível e imaterial nas políticas de tombamento, agregando uma dimensão interna a idéia de patrimônio que tem como referência “saberes, ofícios, festas, rituais...”.  A inclusão da imaterialidade desloca o Estado como único executor das políticas de patrimônio, tendo este que reconhecer atores sociais que reivindicam elementos que se voltam não para uma identidade nacional, mas para grupos sociais específicos, ligados a origem étnica, profissional, religiosa, entre outros.  Cavalcanti e Gonçalves (2010) defendem que ao trazermos a contribuição da antropologia sobre o que se entende por cultura para este campo, neste momento em que seu objeto de análise deixa de ser somente o elemento externo, mas também o interno, pode-se compreender os patrimônios não somente como representantes e expressões dos grupos sociais, mas como elementos que os constituem.
            A Festa, segundo Cavalcanti e Gonçalves (2010), pode se considerada um fenômeno intangível ou imaterial, mesmo tendo sua experiência concreta no espaço e no tempo. Ela não é uma instituição autônoma, e sim uma “atividade ritual”. Para os autores “a natureza cíclica e simbólica da festa e seu forte apelo aos sentidos humanos estão na base de sua notável dimensão estética e da sua capacidade de resistência à usura do tempo” (CAVALVANTI; GONÇALVES, 2010, P. 260).
A Festa de São Benedito cria hoje uma demanda, através de alguns ativistas do movimento negro, para o seu reconhecimento enquanto patrimônio imaterial, o que daria subsídios para a preservação da memória e tradição da comunidade negra que a criou, reinventou e continua lhe dando vida nos últimos domingos de setembro de todos esses anos.

Referências Bibliográficas:
CAVALCANTI, Maria Laura V. de Castro; GONÇALVES, José Reginaldo S. Cultura, Festas e Patrimônios. In: Horizontes das Ciências Sociais no Brasil: Antropologia. Luiz Fernando Dias Duarte (org.). São Paulo: ANPOCS, 2010, P. 258-292.

COUTO, Edilece Souza. Devoções, Festas e Ritos: Algumas Considerações. Dossiê Identidades Religiosas e História. Revista Brasileira de História das Religiões – Ano I, no. 1, 2008.

GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989.

LOWENTAL, David. “Como Conhecemos o passado. In: Projeto História”. In: Trabalhos da Memória. Revista do Programa de Pós Graduados em História da PUC/SP, São Paulo, EDUC, n.17, Nov. 98, pp. 63 - 201.

LUCA. Tânia de. “O Santo Camponês: A Festa de São Benedito em Tietê. In: Terceiro Milênio. Informativo mensal da Igreja Católica em Sorocaba e Região, Setembro 2010 , ano 12,  nº 143.

MAGNANI, Jose Guilherme Cantor . Santana de Parnaíba, memória e cotidiano. In: Regina Abreu; Mário de Souza Chagas; Myrian Sepúlveda dos Santos. (Org.). Museus, coleções e patrimônios: narrativas polifônicas - Coleção Museu, Memória e Cidadania (DEMU/IPHAN/MinC. 1 ed. Rio de Janeiro: Garamond Universitária Ltda, 2007, v. 3, p. 283-323.

MALINOWSKI, Bronislaw. Os argonautas do Pacífico Ocidental. São Paulo: Ed. Abril, 1978.

SAHLINS, Marshall. O "pessimismo sentimental" e a experiência etnográfica: por que a cultura não é um "objeto" em via de extinção (parte I). Mana, Abr 1997, vol.3, no.1, p.41-73.


[1] Parto da perspectiva de Geertz de que os rituais são expressão concreta de um sistema de significados compartilhados por um grupo, a junção do mundo imaginado ao mundo vivido.
[2] Informações disponibilizadas no portal da cidade: www.tiete.sp.gov.br.